Ao final do ano passado, um amigo comentava que a histeria criada em torno do mito do iPhone poderia acabar deixando a Apple em um beco sem saída: se não anunciasse o aparelho na MacWorld, deixaria o mundo inteiro desapontado; se anunciasse, dificilmente atenderia às expectativas. Quando, enfim, Steve Jobs subiu ao palco em São Francisco e mostrou ao mundo um celular essencialmente diferente - e muito melhor - do que os inúmeros rumores até então haviam previsto, as ações da empresa subiram rapidamente e achei que ele havia conseguido o impensável.
No entanto, se “para toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade”, como diria Newton, depois de tanto hype parece que o backlash enfim voltou para atormentar a vida de Jobs. Primeiro, desenvolvedores começaram a reclamar do fato de o telefone ser uma “caixa preta“, que não rodaria programa algum que não fosse produzido pela própria Apple. Depois, começaram a escarafunchar as especificações e a ponderar sobre o contrato de exclusividade com a Cingular. Enfim, a coisa chegou ao ponto de muita gente se perguntar sobre a imparcialidade e interesse dos jornalistas convidados por Jobs e cia. para cobrir o evento e seus produtos.
Agora, parece que a coisa toda está finalmente chegando a quem merece toda a mídia negativa deste mundo: Steve Jobs. Aquele que, por puro rancor, ameaça fornecedores com o fim de seus trabalhos com a Apple se fizerem negócio com a empresa produtora de controles remotos criada por seu grande amigo Steve Wozniak, depois que este deixou a Apple. Que ameaça blogueiros por vazarem informações sobre seus produtos, e proíbe a venda na Apple Store de todos os livros da editora responsável por uma biografia sua de que não gostou. Que defende patentes proprietárias como sendo responsáveis pelo avanço na tecnologia - embora não goste quando outras empresas registram nomes que lhe interessam antes dele -, e tem um histórico nada abonador de apresentar programas não terminados como estando prontos para o lançamento, ameaçando qualquer jornalista que ameaçar contar a verdade sobre o assunto.
Excetuando a maneira como a grande imprensa parece ser incapaz de ter um mínimo de senso crítico quando o assunto é Apple, tudo que me irrita na empresa pode se resumir à mentalidade de Steve Jobs. A maneira com que manipula jornalistas e blogueiros, com que se recusa a ter competição e defende soluções proprietárias com unhas e dentes, são coisas que acabam se refletindo na maneira com que seus produtos funcionam. Mac, iPod e agora iPhone, todos são tecnologias fechadas e exclusivas, que prendem o usuário à marca Apple e se mantêm apenas pela capacidade de servir bem a certos nichos. Mas já era hora de as pessoas que importam, como Dave Winer e o cáustico Valleywag, cobrarem Jobs por atitudes que se viessem de alguém como Bill Gates significariam a maior crise de relações públicas da história da empresa.
Como alguém que tanto fala mal da maneira com que a Apple recebe muito mais atenção da mídia do que merece, já havia tomado como resolução para 2007 diminuir ao máximo o número de posts que tratassem da empresa por aqui. Mas ver, finalmente, este tipo de reação por parcela importante dos formadores de opinião mundo afora me pareceu oportunidade imperdível de me sentir feliz como poucas vezes nos últimos anos em se tratando da empresa da maçãzinha.
8 responses so far ↓
1 Cisco // Jan 17, 2007 at 9:38 am
OK, aquele terceiro parágrafo era a oportunidade ideal para falar do backdating das ações. Se acontecesse com qualquer pessoa que não Steve Jobs (e Bill Gates e Michael Dell, acho), conseqüências choveriam. E mesmo Gates e Dell teriam uma gigantesca crise de RP nas mãos, enquanto Jobs segue com sua imagem de Jesus da Informática.
2 muzell // Jan 17, 2007 at 9:52 am
muito bom, solon.
3 Alexandre via Rec6 // Jan 17, 2007 at 5:32 pm
Adicionado ao Rec6…
“Steve Jobs: God Jobs ou Evil Jobs? (título original = backlash, enfim)”…
4 Solon // Jan 17, 2007 at 5:51 pm
CISCO: acho que se acontecesse com o Michael Dell, ele seria transformado em exemplo para o resto da comunidade, mais ou menos como aconteceu com a Martha Stewart. o Bill Gates talvez se escapasse, mas realmente seria um golpe e tanto à já horrível imagem da Microsoft.
5 Marcus // Jan 18, 2007 at 11:47 am
Excelente post. Se é pra diminuir a quantidade de textos sobre a Apple, que os poucos que você escreva tenham sempre essa visão aguda.
Meu irmão lê muito sobre o assunto e já tinha me adiantado algumas dessas coisas. Ele é praticamente a única voz na caixa de comentários do Pedro Doria que dá o devido chega-pra-lá nos exageros de Apple fanboy dele.
6 Alexandre Fugita // Jan 18, 2007 at 2:43 pm
Achei interessante este post. A Apple realmente causa mais hype do que vale na verdade. Mas a multidão gosta disso, de especular, de idolatrar, etc… parece quase uma religião. O incrível é que mesmo essas histórias cabeludas como a ameaça a blogueiros que divulgaram skins do iphone para PDAs ou o caso do backdating da Apple não são suficientes para abalar a empresa.
7 Solon // Jan 18, 2007 at 9:07 pm
ALEXANDRE: é o efeito do que o Dvorak chama de campo de distorção da realidade, que parece existir em volta do Steve Jobs e afetar o senso crítico de quase qualquer um que chegue perto dele.
8 Techbits // Jan 25, 2007 at 2:23 pm
iPhone: softwares direto da web…
O iPhone foi lançado e causou êxtase em um primeiro momento. Depois começaram as críticas e uma delas, o fato de não ser permitido a instalação de softwares de terceiros, torna tal gadget menos atraente. O leitores mais assíduos deste blog sabe…
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