Num primeiro momento, a cobertura da MacWorld foi como sempre: um bando de fãs travestidos de jornalistas babando diante de qualquer coisa que Steve Jobs jogasse pra eles. Mas depois que a excitação de enfim ver o tão esperado iPhone ser apresentado passou, mesmo notórios usuários de produtos da Apple mostraram um nível de ceticismo e bom senso que há muito tempo não se via nestes casos.
Pra começo de conversa, não houve nenhum anúncio relacionado a computadores. Quer dizer, teve um: a empresa que inventou o computador pessoal não terá mais “computer” em seu nome. Além disso, nenhum dos três produtos apresentados está pronto para a venda, coisa que também nunca havia acontecido em uma MacWorld. Por fim, parece que algumas decisões tipicamente Steve Jobs deixaram muita gente com uma pulga atrás da orelha em relação ao que foi apresentado.
AirPort Extreme

À venda a partir de fevereiro, é uma versão mais rápida, com maior alcance e possibilidade de mais conexões do já clássico “ponto” de rede sem fio. Além das melhorias técnicas (rede 802.11n, saídas WAN e USB), seu visual mudou para ficar mais parecido com o MacMini e com o AppleTV anunciado logo depois. Nada de parar o trânsito, mas uma boa renovação de um produto de sucesso.
AppleTV

Embora já tivesse sido pré-apresentado em agosto do ano passado durante a WWDC - com o nome provisório de iTV -, também só estará à venda a partir de fevereiro. Trata-se, basicamente, de uma versão simplificada de um Mac Mini, com saídas de áudio e vídeo adequadas. Em sua apresentação, Jobs não perdeu muito tempo falando do produto, e por uma boa razão: ele é uma porcaria.
A saída de vídeo é em 720p e apenas em 720p (ou seja, é preciso fazer upscaling para 1080p, e downscaling para televisões normais!), ele só toca arquivos através do iTunes e em formatos que funcionem em um iPod (nada de DivX ou DVDs ripados), e não é possível utilizar a saída USB para ligar drives externos. Pra piorar, além de alguns programas de televisão, a única nova aquisição para o portfolio da loja iTunes foi a produtora Paramount, mas que só irá vender filmes antigos, que podem ser encontrados em lojas por US$9.99. E há boas indicações de que MPAA et al continuam não indo muito com a cara da Apple.
Como se tudo isso não fosse o suficiente, toda a suposta novidade do produto já havia ido por água abaixo dias antes quando Bill Gates anunciou a IPTV para o XBox 360, em uma implementação que deve ter feito Jobs ficar envergonhado ao apresentar o AppleTV. Inclusive, a Microsoft anunciou uma série de coisas muito interessantes durante a CES que não receberam um décimo da cobertura dada à MacWorld, mas isso é coisa para o próximo post.
iPhone

Bom, para começo de conversa, não apostem muito que esse nome será mantido, porque como era esperado a Cisco está processando a Apple, por ter registrado a marca iPhone há muito tempo. Em mais um episódio que é a cara de Steve Jobs, consta que as duas empresas estavam prontas para chegar a um acordo que permitiria a ambas utilizar o nome, até que o CEO da Apple resolveu anunciar o telefone com este nome sem pedir autorização e causando a ira dos sócios da Cisco.
Outra coisa: não espere conseguir botar suas mãos em um antes de 2008. Ou melhor, se você é brasileiro e não pretende morar nos EUA, eu não sei exatamente quando você pode esperar comprar o celular. Ele só será vendido a partir de junho nos EUA, apenas pela operadora Cingular, com a qual se será obrigado a assinar um contrato de dois anos - com sabe-se lá que plano de horas. E, obviamente, as primeiras versões irão sofrer de bugs variados.
Afora isso, é incrível como logo que passou o momento de êxtase coletivo, sites especializados começaram a se dar conta de que trata-se de um belo smartphone, mas que deixa bastante a desejar. Até porque, como bem notou o pessoal do Gizmodo, o Windows Mobile 5.0 já faz tudo que o iPhone vai fazer, só não tão bem.
Mas os dois maiores problemas com o “celular Jesus” - impossível não imaginar como o Gabriel estaria insuportável atualmente - podem ser resumidos a uma frase: é da Apple. Desenvolvedores de software estão frustrados com o fato de que, como acontece com o iPod, ninguém poderá criar programas para o aparelho. Como disse Nick Carr, “Jobs, in fact, couldn’t possibly be more out of touch with today’s Web 2.0 ethos“.
E o outro problema, que também parece ser parte inexorável de produtos Apple é o preço: U$599 por um smartphone de 8GB, com uma câmera de 2.0 megapixel, bateria fraca, que não usa WiFi para sincronizar com o iTunes, não possui 3G (e, portanto, não pode ser usado para baixar coisas diretamente da loja do iTunes), te obriga a ficar dois anos com uma operadora e não tem programas criados por terceiros. Como todo produto “all-in-one”, o que se tem são versões pioradas de todas as funcionalidades oferecidas.
Dito tudo isso, o iPhone certamente está um degrau acima da competição no mercado de smartphones, e vai vender como água. Mas é difícil não pensar que a empresa tinha uma oportunidade de ouro para revolucionar o mercado de telefonia e acabou apenas criando um aparelho acima da média.
Cobertura
A imprensa especializada, sejam grandes jornais ou blogs dedicados a tecnologia, continua comendo na mão de Steve Jobs. Sua apresentação de três produtos em algumas horas provavelmente recebeu mais atenção do que toda a CES até agora, e por causa disso produtos que mereciam muito mais destaque acabaram ficando em segundo plano.
Uma boa demonstração disso é o fato de que publicações que nada têm a ver com tecnologia, como os blogs dedicados a cidades do grupo Gothamist, não dedicaram uma linha sequer à CES ou quaisquer dos anúncios feitos lá, mas deram espaço de destaque ao iPhone. Ainda assim, fico feliz de ver desenvolvedores cobrando uma atitude menos monopolista de Steve Jobs, e usuários de longa data e fãs de produtos da Apple, como Paul Stamatiou e Robert Nyman, analisando os produtos com certa imparcialidade e até mesmo reclamando do hype e dos fanboys, ao invés de ficar exaltando Steve H. Jobs como a segunda vinda.
1 response so far ↓
1 Alexandre Fugita // Jan 14, 2007 at 6:56 pm
Olá Solon!
Bom, eu, como todos, ficamos hipnotizados com o iPhone. E nem acompanhei o keynote pelo Engadget ou via Gui Leite pois no exato momento tive um compromisso que não envolvia PCs ligados à internet. Mas sinceramente surpreendeu em um primeiro momento. Até minha irmã, Mac user, mas não tão ligada assim nos lançamentos da Apple me mandou um email (e como todo bom geek recebo emails no celular, a qualquer hora). Não tive dúvidas e liguei para ela querendo saber das novidades. Qdo tive a oportunidade de usar a internet, horas mais tarde a primeira coisa que fiz foi ir direto ao Engadget, trocar mensagens com alguns amigos Apple fanboys e postar um texto no blog dizendo a minha primeira impressão: Uau!
É notável que um equipamento Windows Mobile ou Symbian ou ainda Palm (possuo um Palm TX) faz as mesmas coisas que o iPhone. SIM, faz! Mas não da forma como o iPhone faz. Foi incrível assistir ao keynote e descobrir soluções muito diferentes para os mesmos problemas. Eu, que sempre fui muito fã de gadgets, fiquei impressionado. Sério mesmo. E já vi de tudo qdo se fala de PDAs, telas interativas, celular, palm, pocket PC, etc… Foi impressionate.
A CES realmente ficou em segundo plano. Só o Ethevaldo Siqueiram, em sua coluna dominical no Estadão falou dela… enquanto todo mundo fala da infinitamente menor MacWorld e seu “God” Jobs.
Bom, já me extendi demais. Abraços!
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