Scott Adams, criador do Dilbert, tem muito a ensinar a polemistas do mundo inteiro. Ao invés de pretender-se superior a todos, ele assume de antemão sua ignorância. Aborda assuntos controversos como conversa sobre sua lista de compras do supermercado, garantindo que todos os lados da discussão sintam-se igualmente ofendidos. E como bom humorista e pessoa inteligente que é, tem respostas prontas para fazer pouco de qualquer argumento minimamente sério que alguém tentar lhe apresentar.
Por isso, longe de mim querer tentar convencê-lo de algo. Mas nos dois últimos post do seu blog, ele acaba levantando uma questão que muito me interessa. Hoje, diz que por mais que queira acreditar no consenso científico sobre o aquecimento global, ele não consegue deixar de pensar tratar-se de mais uma histeria apocalíptica.
Global warming is another issue where the scientific consensus doesn’t match the odor that I’m picking up. I have no rational reason to doubt the consensus of scientists in the field. But to me it SMELLS like “The sky is falling” and “The Y2K bug will destroy civilization.” It’s hard to resist lumping global warming with those examples even though it makes no sense to do so.
Ontem, ao falar sobre as 10 coisas com as quais ele realmente se preocupa, comentou que nenhum deles é um “problema que sejamos capazes de prever”, como a Coréia do Norte, o fim do petróleo ou, claro, o aquecimento global. Afinal de contas, diz ele, a humanidade tem um histórico muito bom em lidar com essas coisas. E, pessoalmente, não há nada que ele possa fazer quanto a elas:
Don’t get me wrong; I think we need to work hard toward solving all of those problems. They won’t solve themselves. But they don’t worry me precisely because they worry everyone else, and that’s been the key to solving most problems throughout history.
Com freqüência, me pego seguindo uma linha de raciocínio bem parecida com essa última ao pensar sobre coisas como terrorismo, a política brasileira e, também, o aquecimento global. Não são coisas que irão se resolver sozinhas, mas são coisas que preocupam o suficiente todas as pessoas que, de fato, podem fazer algo sobre isso. Então, historicamente, a probabilidade é de que elas sejam resolvidas e tudo acabe bem.
Mas, um dos problemas que recai nessa categoria é o previamente citado Y2K. Para quem não se lembra, era o problema de que computadores mundo afora, alguns deles controlando a infra-estrutura de praticamente qualquer recanto civilizado do mundo, iriam simplesmente parar quando seu relógio virasse para o ano 2000. Embora tenha-se previsto toda sorte de quadros apocalípticos para aquela virada do ano, apenas alguns computadores acabaram falhando, todos rapidamente substituídos por sistemas de backup.
Ou seja, mais uma vez estávamos preparados. Mas o quanto desta preparação deve ser creditada ao fato de a histeria ter criado uma compreensão mundial de que o problema existia e precisava ser solucionado? A pergunta é interessante, ao meu ver, porque estamos vendo coisa semelhante com a questão do aquecimento global. Embora haja um consenso (ou o mais perto que se pode chegar disso) entre a comunidade científica de que o problema existe, e que o ser humano tem certa responsabilidade por ele, as coisas param por aí.
Primeiro, a cada dia sai uma pesquisa diferente sobre o quanto, de fato, nós influenciamos o aquecimento de nosso planeta. Quando a discussão passa a ser sobre o que podemos fazer para, pelo menos, tentar diminuir o impacto humano sobre o evento, economistas entram no meio e a coisa já começa a virar discussão de futebol. Se, então, alguém tentar prever a evolução e o efeito do aquecimento a médio e longo prazo, a impressão é de que começou a discutir-se religião.
A diferença óbvia entre o Y2K e o aquecimento global é que aquele não poderia ser piorado pelas tentativas de solucioná-lo. No caso deste, no entanto, há muito dinheiro e política envolvidos. Se a solução para o problema envolve frear o desenvolvimento agora, e a sua não-solução envolve a possibilidade de o desenvolvimento ser obrigatoriamente freado daqui a vinte, trinta anos, não é necessário pensar muito para ver qual será a escolha de economistas e governantes em geral.
Toda esta volta, claro, para lembrar que o Scott Adams não diz ter dificuldades para acreditar no aquecimento global pelo mérito da teoria em si, mas por causa da retórica alarmista que lhe envolve. A comparação com o Y2K, neste caso, é particularmente adequada. Não se trata de não acreditar no problema, mas de que se trata de um problema para começo de conversa.
Em cujo caso, fica a dúvida que carrego desde que ouvi falar no sr. Bjørn Lomborg: será que ao invés de ficar inflacionando números, criando worst-case scenarios e adotando sempre um tom alarmista, os evangelistas do movimento ambientalista não fariam um bem para todos envolvidos (pro planeta inteiro, talvez) ao adotar uma postura um pouco mais, digamos, pragmática? Talvez, assim, pudessem deixar de alienar pessoas como Scott Adams - várias delas em posições bem mais críticas que o cartunista -, e conseguissem com mais facilidade levar sua agenda adiante.
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