É claro que não deveria, mas confesso que estou surpreso. Parece que Second Life já se tornou um experimento sócio-econômico tão importante a ponto de sofrer com o mesmo tipo de bias jornalístico que costumamos ver na cobertura de política e economica.
Tudo começa com o CopyBot, um script criado por um grupo ligado ao Linden Labs (quem criou e mantém o jogo no ar) que, como o nome sugere, permite a cópia das características de certos objetos do jogo. Como o principal motor da economia de Second Life é a venda de roupas, texturas de pele e customizações semelhantes para os avatares, a notícia de que qualquer um poderia copiar suas criações criou um certo pânico entre os comerciantes, que começaram a fechar suas lojas e a organizar protestos.
O assunto, na verdade, não era novidade para os residentes, pois há algum tempo já tinham surgido scripts copiadores de texturas. Mas o CopyBot era especial porque, primeiro, fora criado por um grupo ligado ao Linden Labs e, segundo, atingia algo muito caro à economia do jogo.
Pois segundo uma jornalista do Guardian, jornal britânico de posições sabidamente à esquerda do espectro político, o evento foi responsável pela transformação dos residentes de Second Life de ávidos libertários em defensores da necessidade de um governo centralizado e rigorosas leis anti-cópia:
Second Life has reached a philosophical crisis and the result is potential civil war.
The formerly libertarian landscape has been overrun by rampaging nouveau-capitalists. They want centralised governance and stern economic ruling. Everyone is a potential thief. Fingers are being pointed and, in some extreme cases, avatars are being attacked. The digital idyll has become a world of accusations, violence and bitter political dispute.
Este é o Guardian: uma sociedade à beira da guerra civil. Curiosamente, não há UMA declaração sequer de algum residente ou especialista na matéria de Aleks Krotoski. Temos que acreditar apenas em sua palavra, sobre um jogo que, para o leitor médio, é mais estranho e distante de sua realidade do que Bagdá.
Wagner James Au, por outro lado, conhece Second Life como poucas pessoas. De abril de 2003 a fevereiro de 2006, ele foi o jornalista oficial da Linden Labs, “embebido” dentro do jogo e dando um toque de new journalism à sua cobertura (não por acaso, seu avatar está sempre com um impecável terno branco). Ele foi um dos primeiros a cobrir a reação ao CopyBot, quinze dias antes da matéria de Krotoski.
Conforme seu post vai chegando ao fim, vemos a Linden Labs tomando as rédeas da situação e declarando que o script feria os termos de serviço de Second Life e, portanto, quem o utilizasse ou vendesse poderia ser delatado por outros residentes, correndo o risco de ser suspenso ou banido do jogo. Aí já vemos a primeira falha na matéria do Guardian: o metaverso de Second Life tem um governo centralizado, mas que só age em casos extremos e tenta se meter um mínimo possível na vida de seus usuários.
Também, conforme esfriavam a cabeça e pesquisavam um pouco mais sobre o script, os residentes começaram a achar que sua resposta tinha sido exagerada e que o CopyBot não era o bicho de sete cabeças que tinham imaginado. Cinco dias depois, e ainda seis dias antes da matéria apocalíptica de Krotoski, o jornalista fez um follow-up da controvérsia, levando em conta uma pesquisa e o número de reclamações feitas ao Linden Labs, e entrevistando vários grandes comerciantes que teriam sido os mais afetados pelas cópias. O que vemos é algo bem diferente do quadro pintado pelo Guardian:
Last week it seemed as if it might savage the world, but less than seven days later, it’s truly difficult to even find the damage, let alone assess it. As I write this sentence, at about 4:30pm SLT, nearly 15,000 Residents are currently in-world, while over the last 24 hours, the L$ equivalent of over $600,000 has traded hands. All signs of a thriving economy and a bustling society, not one teetering on the brink of disaster.
Em um mundo com mais de 1 milhão de usuários registrados, e dos mais de 200 mil residentes que participaram dos protestos no auge da confusão, menos de 100 reclamações foram enviadas ao Linden Labs. Os comerciantes entrevistados por Au reconhecem que o problema era muito menor do que imaginavam, e não muito diferente de outros scripts maliciosos que já existiam anteriormente. Todos voltaram a abrir suas lojas e dizem acreditar que basta se manterem inovando que não serão afetados por este tipo de coisa.
Quem acompanha outros blogs sobre Second Life e mundos virtuais, como o SLOG e o Terranova, também viu uma cobertura no sentido de “isto é tempestade num copo d’água” (aqui e aqui, por exemplo). E na última semana, viu o assunto simplesmente não ser mais mencionado. No fim, eu não sei vocês, mas eu acabo de riscar mais uma editoria do Guardian da minha lista de coisas que merecem minha atenção.
2 responses so far ↓
1 Alexandre Fugita // Dec 3, 2006 at 7:47 pm
Interessante. Não tenho acompanhado o SL mas pretendo entrar no jogo em breve. Talvez falte tempo. Já era de se esperar que dentro do SL encontrássemos coisas que acontecem na primeira vida como viés jornalístico e fenômenos econômicos às vezes malucos.
As coisas dentro da Matrix, já dizia o arquiteto, não podem ser perfeitas se não o mundo não funciona… então creio que tudo isso seja perfeitamente normal e com o tempo os mesmos mecanismos de feedback da primeira vida se aplicarão ao SL.
2 Bruno // Jul 11, 2008 at 12:54 pm
“Tudo começa com o CopyBot, um script criado”
nao li tudo mais o copybot nao é script e sim um “exe”
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