Jornalista é um bicho impaciente. Ficar esperando três meses pelo resultado de uma investigação é algo impensável, então, baseados em rumores e amparados por nenhum conhecimento formal do assunto, já começaram a publicar as primeiras teorias sobre como teria sido o acidente que derrubou o 737-800 da Gol, na última sexta-feira.
Desde o fim de semana, como jornalista que é, o Trasel seguiu o mesmo processo nervoso de tentar saber como, diabos, o avião teria caído. Devido a meu breve contato com a área, atacou-me por MSN para trocarmos idéia sobre o assunto. Minha posição foi sempre a mesma: seja lá o que tenha acontecido, terá sido uma sequência de erros, provavelmente de todas as partes envolvidas.
Toda a indústria da aviação, especialmente em nível de linhas aéreas, é estruturada de maneira a que um acidente possa ser previsto e evitado até o último segundo. Um exemplo disso é o sistema de TCAS (Traffic Alert and Collision Avoidance System), que interpõe dados do transponder das aeronaves para emitir diretivas sonoras instruindo um piloto a evitar o choque com outra aeronave ou com a geografia.
Desse modo, para que o acidente efetivamente aconteça, é necessário que ocorram cagadas ao longo de todo o processo. Não é muito agradável na hora de escrever uma matéria e ter que apontar culpados, mas é o efeito colateral de um sistema muito eficiente em evitar acidentes.
faz sentido
Dito isso tudo, esta matéria da Folha de S. Paulo é bastante coerente, apesar do título absolutamente sensacionalista (ninguém sabe, nem a matéria se propõe a dizer, o que realmente aconteceu). A hipótese de o avião ter se desmanchado antes da queda, em especial, me parece responder uma dúvida minha que ainda não vi tratada por ninguém: por que um avião tentando um pouso forçado na selva teria baixado o trem de pouso?
Quem já andou de avião deve ter notado que o trem de pouso é baixado apenas no último momento da aproximação, e que é recolhido imediatamente após a decolagem. Isto porque ele causa um arrasto fenomenal, servindo como um freio aerodinâmico e diminuindo a sustentação. No caso de um pouso na selva, ainda por cima, ele pode se prender a algum galho e causar uma queda ainda mais brusca.
Mas se o choque com o Legacy tivesse, por exemplo, causado algum grande dano à asa do 737, creio que o comandante poderia ter baixado o trem exatamente para tentar diminuir sua velocidade o mais rápido possível, na esperança de retardar o esfacelamento da estrutura. Não conseguindo, o avião começaria a se desmanchar diante das forças do vento e acabaria caindo ainda com o trem baixo e travado.
É possível, claro, que o trem baixo e a baixa velocidade, somados aos danos estruturais da aeronave, o tenham levado a estolar antes da hora que o comandante esperava, em cujo caso a aeronave teria caído como um tijolo ao invés de planar.
Enfim, basta esperarmos alguns meses e teremos respostas mais concretas sobre por que os aviões estariam no mesmo nível de vôo, por que o TCAS não funcionou (ou os pilotos não o obedeceram), e por que um jato pequeno teve avarias pequenas enquanto um Boeing 737 não conseguiu nem mesmo fazer um pouso de emergência. Até lá, resta ver como a Gol sobreviverá a seu primeiro grande acidente.
4 responses so far ↓
1 Alexandre Fugita // Oct 3, 2006 at 11:33 pm
Eu acho que a Gol sobreviverá bem após o desastre. Eles acionaram rapidamente um plano de suporte ao desastre. A imagem deles não saiu queimada. Resta a nós esperar que se descubram as causas exatas do acidente.
2 Solon // Oct 3, 2006 at 11:40 pm
acho que eles estão lidando muito bem com o acidente em si. sua “sorte” é que, até agora, não há suspeitas de erro de conduta por parte dos pilotos, ou de problemas mecânicos na aeronave. assim, minimizam o inevitável medo que as pessoas terão, por algum tempo, de voar em seus aviões.
de qualquer jeito, alguma espécie de backlash sempre acontece. isso, e a maneira com que a empresa irá lidar com as novidades que surgirem nas investigações ao longo dos meses é que me interessam. mas tudo indica que manterão o mesmo nível de excelência nesta infame área que mantêm no resto de suas operações.
3 Marcus // Oct 4, 2006 at 12:00 am
Eu li as matérias da Folha e achei bem coerente, até certo ponto. Neste caso, há três erros ou deficiências: (a) o Legacy ter pego a altitude errada da rota; (b) terem desligado o transponder, ou ele estar com defeito; (c) a torre de controle não ter conseguido contato por rádio. Qualquer desses três problemas não acontecendo, o acidente não teria ocorrido. Mas ainda falta saber por que a colisão não destruiu um avião pequeno mas derrubou um grande.
4 Alexandre Fugita // Oct 4, 2006 at 12:32 am
Fiquei imaginando a probabilidade de dois aviões chocarem-se. Se um deles tivesse “tirado o pé do acelerador” ou ainda “pisado fundo” por uns poucos segundos como estavam a cerca de 800 km/h faria com que não se encontrassem tragicamente…
1 segundo de diferença daria mais de 200m, o suficiente para evitar a colisão…
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