Caveat Emptor

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do no evil

September 12th, 2006 · 3 Comments

Jimmy Wales, fundador da Wikipedia e um dos 100 homens mais influentes do mundo, segundo a revista Time, resolveu comprar briga com o governo chinês. A história é a mesma de sempre: o pessoal em Beijing quer impor restrições ao conteúdo da enciclopédia.

Não sei, exatamente, como a fundação de Wales ganha dinheiro, nem o quanto o mercado chinês poderia lhe ser importante. De toda maneira, sua posição diante da repressão à livre expressão, bem como a campanha do Irrepressible.info, é absolutamente louvável e merece todo tipo de elogio que receber.

Por outro lado, há um problema neste assunto que sempre me incomoda:

Whereas Google, Microsoft and Yahoo went into the country accepting some restrictions on their online content, Wales believes it must be all or nothing for Wikipedia.

Não veja problema algum em criticar a posição das três empresas em aceitar restrições ao conteúdo de seus serviços em troca de poder entrar no mercado chinês. Mas gostaria que houvesse, eventualmente, a ressalva de que a questão, de um ponto de vista pragmático, é um pouco mais complicada.

Pois se, por um lado, pode-se acusar Google, Yahoo e Microsoft de incentivarem a economia de uma repressora ditadura comunista, também é inegável que sua chegada abre novas portas para uma série de pessoas que não serão afetadas por esta repressão. Embora não seja possível criar um blog no MSN para criticar o governo de Beijing, milhões de pessoas por todo o país vão ter a possibilidade de utilizar o serviço para deixar a China um pouco mais próxima do resto do mundo.

Milhares de sites foram eliminados das buscas no Google.cn, mas para quem quiser fazer buscas que nada têm a ver com estes, o novo serviço é muito mais rápido e eficiente do que o acesso ao Google norte-americano. O qual, por sinal, continua sendo acessível para chineses querendo fazer buscas sobre o tibete ou coisa que o valha. E nem vamos falar em hacks, proxies e artimanhas para passar por cima destas restrições.

No fim das contas, a questão toda é saber se, tivessem seguido o caminho de Wales e da Wikipedia, as três empresas teriam feito mais bem ou mal à população chinesa. Isto é, teria sua negativa em trabalhar no país ajudado a pressionar o governo por uma maior abertura democrática? Ou não faria quase diferença nenhuma, enquanto seus serviços podem ser benéficos à larga maioria da população do país? A resposta, sinceramente, não me parece óbvia.

Tags: geek

3 responses so far ↓

  • 1 Cisco // Sep 12, 2006 at 7:59 am

    O problema aqui é que a Wikipedia sofre menos se perder a “first-mover advantage” ao entrar na China. Devido à sua natureza, a Wikipedia é quase um monopólio natural. Se tu parar para pensar, o custo de competir com MSN, Yahoo! e Google é beeeem menor do que o de competir com a Wikipedia. Wales pode ter essa posição porque para ele ela sai barato.

       

    E como os RPs dessas empresas disseram, a escolha real não era entre um MSN censurado e um MSN livre, mas entre um MSN censurado e absolutamente nada.

       

    A narrativa atual é que a própria existência do Google é prova que a first-mover advantage é supervalorizada pelos analistas de marketing (ver “Altavista, derrota retumbante do”), mas vá dizer isso para o pessoal do MySpace tentando competir com o Orkut no Brasil.

       

    (Eu ainda fico incomodado, a propósito, com empresas de informação entrando no mercado chinês. A curto prazo, essas concessões me parecem horríveis. O que me consola é aquele provérbio do J.K. Galbraith.)

  • 2 Solon // Sep 12, 2006 at 1:29 pm

    “Wales pode ter essa posição porque para ele ela sai barato”. é uma posição tão cínica -a tua - quanto os que dizem que o Google traiu a democracia por causa de dinheiro. mas, de todo modo, não responde a minha pergunta.

       

    as vantagens econômicas para as empresas que resolveram entrar no mercado chinês me parecem óbvias. o que eu quero saber é se elas estão ajudando a melhorar ou piorar a questão das liberdades civis no país.

  • 3 Cisco // Sep 12, 2006 at 2:15 pm

    Na minha opinião, estão ajudando a melhorar. Eu concordo que “a escolha real não era entre um MSN censurado e um MSN livre, mas entre um MSN censurado e absolutamente nada”. Um boicote só ia funcionar se (1) fosse massivo e coordenado, o que não vai acontecer e (2) um boicote fosse algo que realmente incomoda a China, como incomodava, por exemplo, a África do Sul.

    O caso do Yahoo! e do jornalista chinês é mais complicado (e eu não sei o suficiente para ter uma opinião), mas nos casos da Microsoft e do Google é mais fácil ver que as empresas estão ajudando as liberdades civis mais do que estão ajudando a sustentar a economia de um país opressivo ou seus esquemas de opressão. A diferença ia ser mínima e os competidores que entrariam no mercado forneceriam um serviço de qualidade semelhante. Não é o caso de dizer que as ponto.com vão acabar com a ditadura chinesa, mas elas serão, na pior da pior das hipóteses, neutras.

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