Para mim, um dos maiores perigos em se lidar com tecnologia é esquecer de pensar em sua aplicação no dia a dia, e começar a se empolgar apenas pela novidade. É algo que tem acontecido bastante com essa história de Web 2.0 - e que pessoas como o Dave Winer consideram o melhor sinal de que trata-se de uma bolha -, e é o que acho que está acontecendo na questão dos serviços de download de vídeo.
A revista Carta Capital do dia 30 de agosto traz, em sua capa, uma matéria do britânico The Observer sobre os “quinze sites que mudaram o mundo”. Curiosamente, em 3° lugar foi colocado o Napster, programa que revolucionou os programas de troca de arquivos de música, mas que hoje é um site de aluguel de músicas com muito poucos usuários.
Acontece que, atualmente, troca de arquivos por programas P2P e a compra de músicas por serviços como a iTunes Music Store são assunto inescapável quando se fala em tecnologia. Grandes gravadoras têm visto uma queda na venda de CDs mundo afora, enquanto a Apple vende iPod como água e sua loja de músicas vende cada vez mais. A distribuição digital chegou para ficar, e muito pouca gente soube reconhecer o fenômeno antes de se instalar.
Obviamente, extrapolar de músicas para filmes não requer muita imaginação. Ainda mais depois da popularização do uso do combo BitTorrent + RSS para gravar séries televisivas, e do sucesso ainda difícil de mensurar do YouTube. Assim, ninguém quer correr o risco de não falar sobre qualquer sinal de uma possível revolução nesta área.
Pois seus sonhos viraram realidade nesta semana, com o lançamento da Amazon Unbox e o anúncio da iTunes Movie Store, dois serviços para compra e aluguel de arquivos de vídeo para download. Foi uma novidade especialmente bem-vinda para quem já estava de saco cheio de discutir diferenças entre 1080i e 1080p, ou a briga HD-DVD e BluRay.
Tendo duas grandes empresas por trás dos serviços, conhecidas por seu pioneirismo, é quase irresistível o impulso de apontar este momento como a fundação de uma briga que decidirá o futuro próximo da distribuição de conteúdo pela internet. Mas, seguindo minha fama de ser do contra, eu acho que é preciso um pouco de ceticismo antes de cair na tentação. Por quê?
Para começo de conversa, pela falta de incentivos econômicos neste formato para os grandes estúdios. É muito bonito falar em “long tail“, mas é bom lembrar que só é possível chegar a este ponto no mercado se as empresas responsáveis por produzir este conteúdo o disponibilizarem.
Além disso, há a questão dos gerenciadores de direito autoral. O serviço da Amazon só permite o uso dos arquivos em dois computadores específicos, em um player proprietário que só funciona em Windows, e só podem ser transferidos para DVDs como backup (isto é, não tocam em aparelho nenhum). Se tratar-se de aluguel, há 30 dias para assistir ao filme, e depois de iniciado é preciso terminar em 24 horas.
Enquanto houver este tipo de proteção ridícula, que diminui a funcionalidade do produto (qualquer DVD pode ser facilmente ripado, por qualquer pessoa semi-alfabetizada no uso de um computador), as pessoas não vão passar aos downloads como alternativa legal de arranjar filmes. Ainda mais se estes custarem mais caros neste formato do que na loja. Este é um problema que precisa ser resolvido pelas produtoras antes que alguém possa pensar em criar uma boa experiência para o usuário.
E aí está o grande problema todo dos modelos apresentados até agora: eles não se preocupam com a experiência do usuário, mas sim com a legalidade de um formato cercado de proteções burocráticas. Trata-se mais de um laboratório tecnológico, do que uma tentativa efetiva de criar uma alternativa interessante para seus clientes.
Enquanto isso, os formatos físicos avançam com velocidade assustadora. O VHS surgiu no início dos anos 80 e reinou absoluto nas casas do mundo inteiro, por praticamente 20 anos. Quando surgiu, o DVD foi relegado ao campo de bobagens sem futuro como o laserdisc, mas rapidamente substituiu o VHS e viu surgir um mercado até então inexistente de pessoas que compram filmes para ter em casa.
Em menos de 10 anos, os televisores passaram por uma revolução e o DVD já vê seus sucessores surgindo no mercado. É possível, até, que se houvesse apenas um novo formato, esta substituição já estivesse em curso, dada a demanda por sinais de alta definição por um mercado cada vez maior de donos de televisores HD.
Isso tudo para dizer que, me desculpem os mais empolgados, mas eu não vejo na eventual batalha entre Unbox e iTunes Movie Store, o empolgante surgimento do futuro na distribuição de entretenimento para nossas casas. Trata-se de uma tecnologia ainda em sua infância, e que tem uma série de questões legais e burocráticas para serem resolvidas antes de, sequer, se pensar em sua utilização em massa.
Hoje em dia, parece fácil prever que este será o futuro do mercado doméstico de filmes. Talvez até seja. Mas há, ainda, muito tempo até que esta tecnologia possa ser levada a sério - algo em torno de 5 a 10 anos, no que tange limites tecnológicos, e sabe-se lá quantos no que tange limites econômicos e legais -, tempo mais que suficiente para que muita coisa aconteça. Tempo até, quem sabe, para mudar toda nossa concepção de entretenimento doméstico, que tornaria obsoleta a idéia de serviços de download e aluguel de filmes.
1 response so far ↓
1 Techbits // Sep 10, 2006 at 1:42 am
Amazon Unbox: filmes para download…
Acaba de entrar no ar o novo serviço de vídeos da Amazon, chamado de Unbox. Como eu já havia dito antes, esqueça Blu-Ray vs. HD-DVD. O pessoal do Caveat Emptor tem lá seus argumentos para a guerra de formatos de discos digitais. Mas a batalha é o…
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